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O QUE OS INDICADORES DE SAÚDE PÚBLICA NÃO PREVIAM

admin | Eventos da Universidade

Reitora e vice reitor da Universidade Metodista falam " o que os Indicadores de Saúde Pública não previam", um artigo publicado em 30 de Maio no espaço Opinião do Jornal de Angola.

O mundo de Maio de 2020 difere substancialmente do de há pouco menos de seis meses. Até Dezembro de 2019, tudo indicava que, se houvesse uma pandemia, África ficaria de rastos. Estas previsões ficaram bem patentes nos avisos exarados pela Organização Mundial da Saúde ao mais alto nível. Numa altura em que muito poucos casos importados existiam em África, o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus mostrou-se extremamente preocupado com o continente, com o advento do novo coronavírus. Esta preocupação do eritreu, com um doutoramento em Saúde Pública e um mestrado em Imunologia de Doenças Infecciosas, pode ter tido origem no seu plano de prioridades para o mandato de cinco anos, do que constavam as emergências de Saúde Pública.

A outra origem desta preocupação do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e da Saúde etíope pode advir dos dados promovidos pela OMS, pouco antes da Covid-19. Até então, todos os indicadores de saúde apontavam para uma maior qualidade de vida e de longevidade para a Europa (vide World Health Statistics 2020, na página digital da OMS). África estava associada a índices reduzidos a todos os níveis. Senão vejamos: nos indicadores de médicos por pessoas, África tinha 3.324 pessoas por cada médico, enquanto que a Europa tinha 293 pessoas por cada médico. A segunda parte do globo com melhor rácio de médicos eram as Américas, com 417. No entanto, usando dados estatísticos da OMS, para alguns cálculos básicos, das 330.329 mortes em todo o mundo, até 21 de Maio de 2020, África tinha 2.992, Ásia 25.880 e a Europa 165.456. A contribuição de África na mortalidade global, devido ao novo coronavírus, era de somente 0,9 por cento, ao passo que a Europa contribuía já com mais de 50 por cento. Em termos de mortes por 100,000 pessoas, a maneira mais comum de comparar países, África contava com 0.2 mortes por 100,000 pessoas, a Ásia tinha 0.5 e a Europa, 22 mortes, por 100,000 europeus.

E os índices globais depreciativos sobre o Velho Continente eram omnipresentes antes da Covid-19. De notar que o índice de preparação para as emergências de Saúde Pública da OMS punha África com um total de 44 valores (de 100 possíveis), enquanto a Europa figurava com 75 pontos. Este padrão (também conhecido como Pontuações do Regulamento Sanitário Internacional), que aparenta ser extensivo, engloba os seguintes indicadores: legislação e financiamento, coordenação e ponto focal, eventos zoonóticos, segurança alimentar, laboratório, vigilância, recursos humanos, quadro de emergência sanitária, prestação de serviços de saúde, comunicação de risco, pontos de entrada, eventos químicos e emergências radionucleares.

Nesta lista, os eventos zoonóticos merecem alguma atenção. Assim, o índice da OMS de preparação para eventos zoonóticos apontava que a Ásia tinha um valor entre 0 e 100 de 58, África, 51 e a Europa, 81. Isto queria dizer que a preparação da Ásia para conter os eventos zoonóticos (transmissão de doenças infecciosas de animais para seres humanos) era superior à de África. A Europa tinha ainda maior capacidade de o fazer, com um valor superior à média global de 67, do que os outros dois continentes. Aqui, os indicadores também traíram o Dr. Tedros. Foi precisamente a Europa que, depois de ter o contraído da Ásia, transmitiu o novo vírus aos Estados Unidos da América e a outras partes do globo. O novo coronavírus não foi controlado na Ásia. África importou casos da Covid-19. Entretanto, África teve Ébola, mas não a transmitiu para outras partes do globo.

As explicações do diferencial para as regiões do mundo, em termos de mortes de Covid-19, variam. Por exemplo, diz-se que a existência de outras patologias no doente com Covid-19 aumentam o índice de mortalidade. Isto foi confirmado em estatísticas obtidas na cidade de Nova Iorque. Entre os que perderam a vida em Nova Iorque, 75 por cento tinha outras patologias comprometedoras. Esta pode ser, sim, a grande preocupação em África, onde a tuberculose, VIH, hipertensão e a malária ainda são prevalentes. A outra explicação avançada, sobre o facto de muito poucos casos em África terem resultado em óbitos, pode estar ligada à faixa etária dos africanos (pirâmide das idades). A Covid-19 parece ser menos letal para as idades mais pequenas.

Até 21 de Maio de 2020, entre os mais de 15 mil mortos em Nova Iorque, somente 0,06 por cento eram entre as idades de 0 aos 17. Entre os adultos de 18 a 44, o índice de mortalidade da Covid-19 foi de 3,9 por cento. Mas entre os idosos de 65 em diante, o índice de mortalidade foi de mais de 73 por cento. Vistos em outro exemplo, os dados relacionados com as faixas etárias são consistentes. Na África do Sul, por exemplo, onde a população de 0 a 24 anos de idade representa mais 45 por cento da população, somente 1.8 por cento dos mais de 18 mil casos confirmados resultaram em óbito. No Reino Unido, onde a idade média é de 41 anos de idade, 14.38 por cento dos 248.293 casos confirmados resultaram em mortes.

Na ausência de mais dados estatísticos sobre os pacientes da Covid-19, principalmente em África, ficamos limitados aos dados provenientes de países mais transparentes em termos de vigilância epidemiológica, como a Austrália, no Pacífico, onde, entre os mais de 7 mil casos confirmados, somente 1.4 por cento resultaram em óbitos, ou seja, 100 óbitos até 21 de Maio de 2020. O sucesso da Austrália, que tem mais de 15 por cento da população acima dos 65 anos, deveu-se ao facto de o país reconhecer muito cedo que estava diante de uma emergência de Saúde Pública contra um vírus.

Ao contrário de uma bactéria, a propagação de um vírus combate-se com medidas de prevenção. A maior arma contra uma partícula não é a sua cura (que tende a levantar questões de quem a recebe primeiro, capacidade de produção a escala larga etc.) ou o número de médicos por 100.000 pessoas. É o conjunto de medidas são que a impede de se propagar. Austrália, para além das medidas de estímulo económico em excesso de 65.131.500 mil milhões de dólares e o encerramento de instituições públicas e privadas, proibiu temporariamente a exportação não comercial de bens e itens, para prevenir a propagação da Covid-19.

João Canoquena, Ph.D. (Vice-Reitor, Universidade Metodista de Angola) & Martha Nyanungo, Ph.D. (Reitora, Universidade Metodista de Angola)

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